6 coisas óbvias que todo mundo devia ter em mente antes de entrar em uma discussão política

Frequentemente as pessoas me perguntam como faço para lidar bem com pessoas de opiniões tão diferentes das minhas. Compartilho aqui, em primeira mão, o segredo — que não é nada secreto (além de ser bastante básico e óbvio).

  1. Confie na boa fé: Sempre parta do pressuposto que o seu interlocutor tem aquela opinião porque ele acredita que ela é melhor em comparação às alternativas. Confie que ninguém defende uma opinião porque quer ver o mundo piorar. Não faz diferença se isso é verdade ou mentira, esse é um pressuposto que você tem que assumir. É um princípio básico da tolerância e um importante passo para eliminarmos rótulos políticos.
  2. Escute. Escutar significa colocar-se em uma posição vulnerável o suficiente para talvez mudar de ideia. Você não precisa mudar de ideia de fato, mas estar genuinamente disposto a tal. Você não é um candidato em um debate eleitoral na TV e, mesmo que fosse, flexibilidade intelectual é sinal de inteligência. A capacidade de reconhecer falhas é um atributo raro e aceitar ideias diferentes é extremamente relevante para a evolução humana, social, política e econômica.
  3. Abra sua mente. Aceite que você pode estar certo e seu interlocutortambém. Problemas não tem soluções únicas, muito menos universais. Um determinado problema pode ser resolvido de várias maneiras diferentes. Por exemplo, a solução do João Doria para melhorar o trânsito em São Paulo pode ser tão eficiente (ou ineficiente) quanto a solução de Fernando Haddad. Ao mesmo tempo, paradoxalmente, uma solução que resolve um problema em determinado país pode não resolver o mesmo problema em outro país. A maneira como a herança é tributada na Califórnia (EUA) pode não ter o mesmo resultado fiscal e distributivo se aplicada na França.
  4. Seja humilde. Poderosas são as pessoas que dialogam e reconhecem o valor daqueles que as cercam. Por exemplo, não há incoerência nenhuma em reconhecer o valor dos avanços sociais que Lula trouxe para o Brasil e, ao mesmo tempo, querer que ele cumpra as penas pelos crimes que cometeu. Afinal, se a condenação do ex-presidente se confirmar, ele vai cumprir uma pena pelos crimes de corrupção e lavagem de dinheiro e não por seus programas de governo.
  5. Seja empático. Entenda que, para algumas pessoas, certas questões são exclusivamente morais/ideológicas. Na época da escravidão, algumas pessoas defendiam o sistema escravista argumentando que os números indicavam que era economicamente mais eficiente explorar a mão de obra escrava. Acho que é fácil compreender que não importa se os números estavam certos ou errados: é imoral aceitar que uma pessoa seja submetida àquela condição. Assim funciona o posicionamento de algumas pessoas sobre alguns pontos, a questão moral é mais relevante que a eficiência em si. Aborto, é um exemplo. Por mais que os fatos e números provem que a legalização do aborto é a melhor solução para diversos problemas de desigualdade na saúde pública nacional, algumas pessoas não aceitam essa solução por princípio moral. Nem todo mundo está disposto a ignorar sua moral e, nesses casos, não adianta argumentar por números. O mesmo acontece com a pena de morte, legalização das drogas, porte de armas e outros tantos exemplos. Vale dizer aqui que eu defendo a legalização do aborto.
  6. Aceite que rótulos e classificações não são universais. Existem princípios e valores que são compartilhados por pessoas de ideologias diferentes. Valores progressistas de liberdade e igualdade como feminismo, direitos LGBT+, defesa da igualdade racial, estão acima da questão político-ideológica, por exemplo: Justin Trudeau (primeiro ministro do Canadá, pelo Partido Liberal) apoia algumas pautas liberais e é um símbolo atual na defesa de pautas progressistas, como o feminismo. Kim Kataguiri (do MBL — Movimento Brasil Livre) se define como economicamente liberal e é contra o feminismo. Ou seja, embora Trudeau tenha algum alinhamento liberal com Kataguiri, em certas pautas ele está mais próximo de Dilma Rousseff (feminista, inimiga do MBL e uma das maiores opositoras das pautas economicamente liberais).
Foto: Facebook

Essa não é uma lista exaustiva, é apenas uma iniciação: colaborações, correções e objeções são muito bem-vindas! Finalizo indicando aqui dois textos do jornal Nexo que são bem interessantes para quem quer melhorar o ambiente e o debate político no Brasil: Como discutir política sem baixar o nível e Por que ‘opinião não é argumento’, segundo este professor de lógica da Unicamp.

Esse texto reflete uma opinião pessoal e não a opinião oficial do movimento sobre o assunto. Somos um movimento plural, capaz de acolher diversas de visões.

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