Coronavírus e o futuro do trabalho

A atual pandemia causada pelo novo coronavírus trouxe para o mundo, ou pelo menos para grandes centros urbanos, um pequeno vislumbre do futuro. Não falo aqui das ruas cheias de pessoas cobertas por máscaras, mas das tendências que muitos apontam para o mercado de trabalho. Uma delas é o crescimento de ocupações remotas, o que pode trazer consequências positivas para funcionários, empresas e sociedade. Outra, muito mais preocupante, é o aumento da vulnerabilidade dos trabalhadores, que cada vez menos estão protegidos por vínculos formais de emprego e cada vez mais necessitam de tecnologias às quais não tem acesso para exercer suas funções.

Tratemos, primeiro, dos efeitos positivos do trabalho remoto, ou home office. Como forma de reduzir a velocidade da propagação da doença, o governo de São Paulo e do Rio recomendaram àqueles que puderem que trabalhem de suas casas e evitem o contato com outras pessoas. Como resultado, grandes empresas brasileiras, das mais diversas áreas, aderiram a prática, incentivando o home office: a corretora XP Investimentos, o escritório de direito Mattos Filho e o BNDES são apenas alguns dos muitos exemplos. A iniciativa, além evitar aglomerações e,portanto, novos contágios, tem potencial de gerar alguns outros impactos positivos para os centros urbanos, pois com a redução de deslocamentos desnecessários, diminui-se, também, o trânsito e a emissão de gases poluentes.

Em tempos de economia estagnada, há ainda um benefício adicional do home office: ao contrário do que sugere o senso comum, trabalhar de casa pode aumentar a produtividade dos empregados! Uma pesquisa de Nicholas Bloom, professor de economia de Standford, sugere ganhos de 13,5% no rendimento de funcionários que aderiram a prática. A redução de custos para as empresas – que podem economizar com a infraestrutura dos escritórios – chega à 17% por trabalhador.

No Brasil, contudo, apenas a parcela mais privilegiada da população pode trabalhar remotamente. O que nos leva ao aumento da vulnerabilidade dos trabalhadores, evidenciado pela pandemia atual. Pedreiros, manicures, Rappis, Ubers e faxineiras não conseguem exercer suas atividades profissionais de casa. Pior: como são, em sua grande maioria, trabalhadores informais, não terão nenhuma proteção ou compensação caso deixem de ir para o trabalho para se proteger do Covid 19. São cerca de 25 milhões de brasileiros que ficam entre a cruz e a espada,tendo que optar entre se expor ao vírus ou reduzir sua renda mensal. A segunda opção costuma apresentar-se inviável em um país no qual um terço da população recebe até um salário mínimo.

A situação piora ao constatarmos que mesmo indivíduos com ocupações que podem ser exercidas remotamente,muitas vezes não conseguem trabalhar de casa. Isso por que o acesso à internet segue sendo extremamente desigual entre as regiões brasileiras e até mesmo dentro de uma mesma cidade. Na capital paulista, por exemplo,a porcentagem de domicílios com banda larga superior a 4 MPBS é de quase 50% no Centro Expandido, mas de apenas 10% em partes da Zona Norte. Nas classes D e E, menos de metade dos indivíduos tem acesso à internet,de acordo com estudos do NIC.BR.

Assim, proponho que, de todos os males trazidos pelo coronavírus, tiremos, ao menos, uma grande lição. A de que nossas atuais estruturas são insuficientes para lidar com os novos modelos de trabalho que estão surgindo. É passada a hora de nossos governantes pensarem em soluções legais, que regulem as novas formas de trabalho emergentes, conciliando incentivo econômico e proteção ao trabalhador. Mas o trabalho não deve acabar no legislativo: é necessário, mais do que nunca, investir em infraestrutura e equipamentos públicos que garantam a inclusão digital, cada vez mais necessária para a inclusão produtiva. Sairiam ganhando, de uma só vez,trabalhadores, economia e, indiretamente, até o meio ambiente.

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