Frente Ampla pelo Impeachment de Bolsonaro

Há duas semanas, carreatas pedindo o impeachment de Jair Bolsonaro ocorreram na maioria das capitais do Brasil e em dezenas de cidades do interior. Em São Paulo, Rio de Janeiro e Belo Horizonte milhares de carros, motos e bicicletas tomaram as ruas para protestar em favor da responsabilização constitucional do atual presidente, em razão dos inúmeros crimes de responsabilidade já cometidos. A ênfase das manifestações, convém ressaltar, centrou-se no negacionismo científico no enfrentamento da pandemia de Covid-19 e o descaso, a omissão e a incompetência com a saúde pública nesse contexto, sobretudo, após o colapso do sistema de saúde em Manaus pela falta de oxigênio. Nada disso pode parar diante do resultado de segunda-feira no Congresso.

Seja em razão da participação ativa nos atos antidemocráticos, que pediam a intervenção em outros Poderes da República, da interferência na Polícia Federal para obstruir a justiça, da sua atuação na pandemia, que ceifou a vida de milhares de brasileiros ou, até mesmo, da questão ambiental, o que não falta é motivo para imputar crime de responsabilidade a Jair Messias Bolsonaro. O presidente atenta contra a Constituição rotineiramente. Isso sem contar com a habitual falta de decoro, incompatível com o cargo de Presidente da República e também tipificada como crime de responsabilidade pela Lei do Impeachment. Não por acaso, já são 62 pedidos protocolados no Congresso. E quem comete crime de responsabilidade deve sofrer impeachment. Simples assim, sem rodeios.

Para além dos motivos jurídicos, geralmente se diz que é necessário – para um impeachment ter chances de sucesso – de crise econômica, um presidente impopular e povo nas ruas protestando contra o presidente. Já estamos indo para o segundo ano de baixo desempenho econômico no Brasil e, com o atraso da vacinação pela incompetência do Ministro da Saúde aliado ao negacionismo científico de Bolsonaro, perdemos de horizonte a retomada econômica brasileira. A impopularidade de Bolsonaro voltou a subir nas últimas pesquisas de opinião. Panelaços retornaram com intensidade pelo país e cartas públicas e manifestos de professores, juristas, médicos, lideranças católicas e evangélicas pedindo o impeachment estão se multiplicando.

Além do mais, apesar das restrições sanitárias existentes em virtude da pandemia, a novidade é que encontramos uma maneira segura de ir às ruas, de modo a preservar o distanciamento social, e ao mesmo tempo nos manifestar pelo impeachment: as carreatas. Ao contrário do que os apoiadores do presidente pregaram, dezenas – talvez centenas – de milhares de brasileiros espalhados pelo país deflagraram a campanha de mobilização pelo impeachment de Bolsonaro também nas ruas. A desculpa utilizada pela classe política de que faltava irresignação popular não procede mais. E, com o passar do tempo, vai fazer cada vez menos sentido.

Alguns dizem que não existe clima de impeachment – os mesmos que, se estivessem gritando contra os crimes de responsabilidade do presidente, poderiam contribuir para criar essa atmosfera. A campanha pelo impeachment só começou a valer há duas semanas e o clima ainda pode virar. Mesmo que não fosse aprovado, aceitar alguma das denúncias e abrir o processo é um imperativo moral frente às mais de 220 mil mortes na pandemia, muitas causadas pela omissão e negligência do Governo Federal.

Isso tudo a despeito da lamentável eleição no Congresso. Diante da incompetência em relação às vacinas e do fim do auxílio emergencial, a popularidade de Bolsonaro não deixou de cair e o Ministério da Saúde continua atrapalhando – ao invés de ajudar – no combate à Covid-19. E, mais do que nunca, é preciso ter gente na rua em defesa da democracia e da Constituição. O regime democrático brasileiro perdeu o freio contra abusos que existia no Poder Legislativo e, mais do que nunca, a sociedade civil deve desempenhar o papel de fiscalização e controle sobre o Poder Executivo. A resignação não é uma resposta. É hora de lotar as ruas pelo impeachment para mostrar que o povo não vai aceitar calado a escalada do autoritarismo.

É preciso dizer ainda que um impeachment mal sucedido não necessariamente implica em fortalecimento do mandatário. Aqui no Brasil, o ex-prefeito do Rio de Janeiro, Marcelo Crivella, enfrentou com dificuldade dois processos de impeachment. Mesmo assim, e com o apoio do presidente, sofreu uma derrota acachapante na eleição municipal. Nos Estados Unidos, Bill Clinton não fez sucessor e Donald Trump não foi reeleito. Mais antigamente, em 1868, Andrew Jackson foi forçado a moderar o discurso e se sentar para negociar com a oposição, tendo que parar de boicotar abertamente os esforços de reconstrução posteriores à Guerra Civil. Com medo de se banalizar o impeachment, alguns setores da sociedade estão normalizando os crimes de responsabilidade, as ameaças à democracia e a negligência com a vida dos brasileiros.

Nós, do Movimento Acredito, temos o sonho de construir uma frente ampla suprapartidária pelo impeachment de Jair Bolsonaro, composta por organizações políticas, movimentos sociais, partidos e cidadãos independentes. No último sábado, a esquerda e o centro foram às ruas. No último domingo, a centro-direita e os dissidentes da direita. É indispensável que nos próximos atos contra Bolsonaro todos estejam juntos para potencializar ainda mais a força da campanha pelo impeachment.

Tenhamos como exemplo Juscelino Kubitschek, João Goulart e Carlos Lacerda, que se uniram contra a ditadura militar em seu início. Ou, em seu fim, quando Ulysses Guimarães, Tancredo Neves, Leonel Brizola, Fernando Henrique Cardoso e Lula compartilharam palanque na luta pelas Diretas Já e pela redemocratização. Só com a união de todas as forças opositoras, de diversos espectros ideológicos, será possível dar um basta ao comportamento abusivo, extremista e antidemocrático de Jair Bolsonaro.

Lucas Azevedo Paulino, Thiago Süssekind e Marco Martins. Líderes do Movimento Acredito e organizadores das carreatas em Belo Horizonte, Rio de Janeiro e São Paulo respectivamente.


Leave Your Comment

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Solve : *
1 + 4 =